Bolsonaro enfrenta nova cirurgia e expõe o desespero de seus seguidores
A notícia de que Jair Bolsonaro precisará passar por mais uma cirurgia reacendeu um clima de tensão entre seus apoiadores mais fiéis. O ex-presidente, que desde o atentado de 2018 enfrenta sucessivos problemas de saúde, volta ao centro das atenções não apenas pelo procedimento médico em si, mas pelo simbolismo político que sua fragilidade física carrega para um movimento que sempre se vendeu como forte, combativo e imune a abalos. Nas redes sociais, o cenário é de desespero aberto. Seguidores falam em “perseguição”, “injustiça” e chegam a afirmar que Bolsonaro estaria sendo “morto aos poucos”, como se cada cirurgia fosse parte de um complô maior. A imagem do líder “imbrochável”, resistente e indestrutível, dá lugar a um homem visivelmente debilitado, o que provoca pânico em uma base que depende fortemente da figura pessoal de Bolsonaro para se manter mobilizada.
Esse desespero, no entanto, vem acompanhado de um discurso carregado de vitimismo que beira o cinismo. É irônico ver bolsonaristas acusando instituições, médicos ou adversários políticos de injustiça, como se Bolsonaro fosse a maior vítima da história recente do país. A retórica ignora fatos objetivos: cirurgias decorrem de condições médicas reais, muitas delas consequência direta do atentado que ele sofreu, e não de decisões políticas. A ironia se torna ainda mais amarga quando se lembra do comportamento desse mesmo grupo durante a pandemia de Covid-19. Naquele período, a morte de centenas de milhares de brasileiros foi tratada com descaso, piadas e frases como “e daí?” ou “todo mundo vai morrer um dia”. Não houve empatia, luto coletivo ou indignação proporcional por parte dos bolsonaristas diante das vítimas da crise sanitária.
Diante do sofrimento de seu líder, o tom muda radicalmente. A dor passa a ser intolerável, a injustiça vira palavra de ordem e a comoção é imediata. A comparação é inevitável e expõe uma contradição profunda: a vida só parece ter valor quando pertence ao ídolo político, enquanto as mortes anônimas da pandemia foram relativizadas ou simplesmente ignoradas. Mais do que um episódio médico, a nova cirurgia de Bolsonaro escancara o esgotamento de um projeto político baseado na personalização extrema do poder. O desespero dos seguidores diante da fragilidade do líder revela não apenas medo por sua saúde, mas o vazio deixado por um movimento que nunca soube existir sem um mito — e que agora se vê obrigado a encarar suas próprias incoerências.



0 comments:
Postar um comentário